Estudo consolidado · 18 edições, 2007 a 2024
Cada página de ano único deste hub mostra uma fotografia. Este estudo mostra o filme inteiro: as 18 edições do Censo Escolar, ano a ano, para separar o que de fato mudou na educação básica brasileira do que só parece ter mudado num único corte. Os números de série vêm da mesma base BigQuery (basedosdados) das páginas anuais, cruzados com pesquisa própria da Astronauta sobre queda demográfica, fragilidade regional e o funil até o ensino superior.
Todos os números desta página: Censo Escolar da Educação Básica, INEP, 18 edições (2007 a 2024), extraídos via BigQuery (basedosdados, tabela "escola")
01 · Panorama geral
Matrícula, escolas ativas e docentes, indexados a 2007 = 100. O eixo vertical não começa em zero: o foco é a variação relativa entre as três curvas, não a escala absoluta de cada uma.
Dezoito pontos, um por edição do Censo, sem nenhum ano faltando na série.
| Ano | Matrículas | Escolas ativas | Docentes |
|---|---|---|---|
| 2007 | 100 | 100 | 100 |
| 2008 | 100,4 | 103,6 | 107,3 |
| 2009 | 99,2 | 102,5 | 109,3 |
| 2010 | 97,2 | 101,2 | 111 |
| 2011 | 96,1 | 98,2 | 112,5 |
| 2012 | 95,3 | 98,1 | 115,3 |
| 2013 | 94,4 | 97,1 | 117,9 |
| 2014 | 93,9 | 96 | 120,2 |
| 2015 | 92 | 95,1 | 120,1 |
| 2016 | 92,1 | 94,7 | 120,9 |
| 2017 | 91,7 | 93,7 | 120,4 |
| 2018 | 91,4 | 92,6 | 122,3 |
| 2019 | 90,3 | 91,9 | 121,4 |
| 2020 | 89,2 | 91,3 | 119 |
| 2021 | 88 | 90,7 | 122,8 |
| 2022 | 89,4 | 92,9 | 126,2 |
| 2023 | 89,2 | 90,8 | 126,6 |
| 2024 | 88,8 | 91,2 | 126,8 |
Em 2024 a matrícula está no índice 88,8 e os docentes em 126,8: o corpo docente cresceu mais de quatro vezes o quanto a matrícula caiu, em pontos de índice, sem nunca recuar abaixo do índice inicial em nenhuma das 18 edições.
Leitura do dado
A matrícula nunca volta ao nível de 2007: sobe de leve em 2008 (índice 100,4, o pico da série), cai de forma quase contínua até o piso de 2021 (88,0), tem um repique em 2022 (89,4) e fecha 2024 em 88,8, ainda 11,2 pontos abaixo do ano base. Escolas ativas seguem um formato parecido, com mais ruído: pico em 2008 (103,6), piso também em 2021 (90,7), um salto isolado para 92,9 em 2022 e fechamento em 91,2.
Docentes é a curva que quebra o padrão: sobe de 100 (2007) para 126,8 (2024) sem nunca, em nenhuma das 18 edições, cair abaixo do índice inicial, mesmo no ano de matrícula mais baixa (2021, quando a matrícula já estava em 88,0 e os docentes em 122,8). O mesmo mecanismo aparece na razão aluno por docente do hub: 22,88 em 2007 para 16,02 em 2024, turma menor virando padrão nacional, não exceção pontual de um ano.
02 · Privatização
Participação da rede pública (federal, estadual e municipal) e da rede privada nas matrículas da educação básica, 2007 a 2024.
Escala de 0% a 100%: uma sobe exatamente o que a outra desce.
| Ano | Rede pública | Rede privada |
|---|---|---|
| 2007 | 88% | 12% |
| 2008 | 86,7% | 13,3% |
| 2009 | 86,1% | 13,9% |
| 2010 | 85,3% | 14,7% |
| 2011 | 84,5% | 15,5% |
| 2012 | 83,5% | 16,5% |
| 2013 | 82,8% | 17,2% |
| 2014 | 81,7% | 18,3% |
| 2015 | 81,4% | 18,6% |
| 2016 | 81,6% | 18,4% |
| 2017 | 81,7% | 18,3% |
| 2018 | 81,4% | 18,6% |
| 2019 | 80,9% | 19,1% |
| 2020 | 81,4% | 18,6% |
| 2021 | 82,6% | 17,4% |
| 2022 | 81% | 19% |
| 2023 | 80,1% | 19,9% |
| 2024 | 79,8% | 20,2% |
A fatia privada cai em 4 dos 17 intervalos anuais da série (2016, 2017, 2020 e 2021 sobre o ano anterior); a queda de 2021, para 17,4%, é a maior reversão da série inteira (-1,2 ponto percentual), coincidindo com a pressão financeira da pandemia sobre famílias pagantes.
Leitura do dado
Entre 2007 e 2024 a rede privada passa de 12,0% para 20,2% da matrícula da educação básica, um avanço de 8,2 pontos percentuais em 18 edições do Censo. A trajetória não é uma linha reta: a fatia privada recua em 4 dos 17 intervalos anuais da série, em 2016 (de 18,6% para 18,4%), em 2017 (18,4% para 18,3%), em 2020 (19,1% para 18,6%) e, com mais força, em 2021 (18,6% para 17,4%), a maior reversão anual de toda a série (-1,2 ponto percentual), no mesmo ano em que a pandemia pressionou a renda das famílias pagantes. Só depois de 2021 o crescimento retoma e não para mais, fechando 2024 no maior valor já registrado.
03 · Etapas em transição
Participação de cada etapa no total de matrículas, 2007 contra 2024. As categorias se sobrepõem parcialmente: a soma das barras passa de 100% nos dois anos.
Educação Profissional quase triplica de fatia (1,9% para 5,5%) e Educação Especial mais que triplica (1,2% para 4,4%), os dois maiores saltos relativos da série, ainda que a Educação Infantil seja quem ganha mais pontos percentuais em termos absolutos (+7,8pp).
Leitura do dado
O Ensino Fundamental perde peso relativo (61,0% para 55,2% da matrícula nacional) sem deixar de ser, disparado, a maior etapa do país. A Educação Infantil é quem mais cresce em pontos percentuais, de 12,4% para 20,2%, reflexo de expansão de creche e pré-escola como política pública. EJA perde mais da metade da sua fatia relativa (9,5% para 5,1%), coerente com uma população mais jovem tendo, ao longo da série, menos defasagem escolar acumulada para recuperar.
Profissional e Especial são o achado menos óbvio deste corte: as duas etapas mais que triplicam sua fatia relativa (1,9% para 5,5%, e 1,2% para 4,4%, respectivamente). Isso não é sinal de expansão demográfica, é sinal de política de classificação e de oferta: mais matrícula técnica ofertada e mais reconhecimento de matrícula em classes exclusivas de educação especial. As seis categorias se sobrepõem parcialmente, por isso a soma das barras passa de 100% nos dois anos.
04 · Infraestrutura
% das escolas ativas com o recurso, 2007 a 2024.
| Ano | Internet | Biblioteca ou sala de leitura | Laboratório de informática | Laboratório de ciências |
|---|---|---|---|---|
| 2007 | 29,3% | 33,4% | 21% | 7,8% |
| 2008 | 35,3% | 36,5% | 25,6% | 8,8% |
| 2009 | 41,8% | 38,6% | 29,2% | 9% |
| 2010 | 47,5% | 41% | 34,6% | 9,5% |
| 2011 | 52,2% | 44,1% | 40,8% | 10,3% |
| 2012 | 56,2% | 46% | 44% | 10,6% |
| 2013 | 58,4% | 47,4% | 44,6% | 10,8% |
| 2014 | 61,3% | 48,3% | 44,8% | 11,1% |
| 2015 | 65,7% | 49,5% | 44,5% | 11,3% |
| 2016 | 68,6% | 50,4% | 42,4% | 11,6% |
| 2017 | 67,7% | 50,7% | 39,9% | 10,6% |
| 2018 | 72,9% | 51,1% | 37,7% | 10,6% |
| 2019 | 75,5% | 51,8% | 35% | 11,5% |
| 2020 | 79,8% | 52,2% | 34,5% | 12,2% |
| 2021 | 82,9% | 52,3% | 33,5% | 12,6% |
| 2022 | 87,5% | 51,9% | 31% | 12% |
| 2023 | 90,9% | 52,4% | 30,2% | 12,5% |
| 2024 | 92,1% | 53% | 29,6% | 13,1% |
Laboratório de informática é o único dos 4 indicadores que não sobe de forma monotônica: sobe 7 anos seguidos (2007 a 2014), atinge o pico de 44,8% e cai 10 anos seguidos, sem uma única recuperação, até 29,6% em 2024, terminando a série abaixo até do nível de 2011 (40,8%).
Leitura do dado
Internet é o indicador que mais avança na série inteira: de 29,3% das escolas em 2007 para 92,1% em 2024, um ganho de 62,8 pontos percentuais. Biblioteca ou sala de leitura e laboratório de ciências sobem de forma mais lenta e igualmente constante, de 33,4% para 53,0% e de 7,8% para 13,1%.
Laboratório de informática é o caso à parte, e o mais interessante da série: sobe de 21,0% (2007) a um pico de 44,8% (2014) e cai, sem interrupção, até 29,6% (2024). Nenhum outro indicador de infraestrutura deste Censo tem esse formato de U invertido. A leitura mais provável não é sucateamento de rede, é substituição: notebook e celular do próprio aluno foram tomando parte do papel que o laboratório dedicado cumpria antes.
05 · EAD residual
Matrículas em Educação a Distância: modalidade em que a mediação didático-pedagógica ocorre com uso de tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores em locais e tempos diversos na educação básica, todas as etapas, 2007 a 2024.
2007 a 2014 é zero estrutural: a modalidade não era reportada como categoria própria neste período, não é ausência real de ensino a distância.
| Ano | Valor |
|---|---|
| 2007 | 0 |
| 2008 | 0 |
| 2009 | 0 |
| 2010 | 0 |
| 2011 | 0 |
| 2012 | 0 |
| 2013 | 0 |
| 2014 | 0 |
| 2015 | 628 mil |
| 2016 | 694 mil |
| 2017 | 682 mil |
| 2018 | 675 mil |
| 2019 | 640 mil |
| 2020 | 590 mil |
| 2021 | 641 mil |
| 2022 | 861 mil |
| 2023 | 1,0 mi |
| 2024 | 1,0 mi |
EAD caiu durante boa parte do período pré-pandêmico e seguiu caindo no ano mais agudo da pandemia, de 693.828 matrículas em 2016 para 590.340 em 2020, o menor valor da série desde que a categoria existe.
Leitura do dado
A modalidade EAD na educação básica não existe como categoria reportada com volume até 2015: os oito primeiros anos da série são zero estrutural, não ausência real de ensino a distância. Uma vez que passa a existir, o comportamento contraria a intuição: cai de 693.828 matrículas em 2016 para 590.340 em 2020, o menor valor desde que a categoria existe, incluindo o ano mais agudo da pandemia. A explicação é estrutural, não é queda de demanda: o ensino remoto emergencial de 2020 e 2021 foi registrado pela rede como presencial, não como EAD formal, porque as escolas mantiveram o vínculo e a matrícula do aluno como estavam antes da pandemia.
A modalidade só dispara depois do pico agudo da pandemia: de 641.056 (2021) para 860.753 (2022) e 1.042.337 (2024), a maior alta em qualquer janela de dois anos da série inteira. A migração para EAD como categoria formal veio depois do remoto emergencial, não durante ele.
06 · O Enrollment Cliff brasileiro
Datação do efeito da queda de natalidade brasileira sobre a matrícula, e por que o formato é diferente do Enrollment Cliff americano. Esta seção cruza os dados do Censo Escolar com pesquisa própria de Enrollment Management da Astronauta (nascimentos: Banco Mundial/ONU).
Leitura do dado
O pico de nascimentos no Brasil foi em 1983, cerca de 4,0 milhões, parte de uma transição demográfica de décadas, não de um choque isolado como a recessão americana de 2007 a 2009. A partir dali a série de nascimentos cai de forma praticamente contínua, com uma desaceleração passageira entre 2008 e 2015 seguida de queda mais acentuada desde 2016. O efeito já é visível no dado de matrícula: o Ensino Fundamental caiu todo ano, sem uma única exceção, de 2007 (pico, 32.320.247 matrículas) a 2024 (26.002.356), 17 anos consecutivos de queda, uma perda de 19,5% frente ao pico. Não há, nessa série, nenhum ano de recuperação, nem parcial.
O Ensino Médio segue o mesmo mecanismo com atraso e de forma mais suave: pico em 2011 (8.401.829), caindo de forma irregular, não todo ano, até 7.790.396 em 2024, uma queda de apenas 7,3% desde o pico, bem mais branda que os 19,5% do Fundamental. A leitura mais provável, não comprovada diretamente pelos dados de matrícula, é que em 2011 o Médio brasileiro ainda tinha uma taxa de acesso bem distante de 100%, e o crescimento dessa taxa continuou compensando o encolhimento da coorte de nascimento por mais tempo do que no Fundamental, já praticamente universalizado.
| Etapa | Idade de entrada | Ano teórico (1983 + idade) | Ano observado do pico | Defasagem |
|---|---|---|---|---|
| Ensino Fundamental | 6 anos | 1989 | 2007 | +18 anos |
| Ensino Médio | 15 anos | 1998 | 2011 | +13 anos |
| Ensino Superior (presencial) | 18 anos | 2001 | 2015 | +14 anos |
Leitura do dado
Essa defasagem de 13 a 18 anos entre o que a demografia sugeria e o que de fato aconteceu é, em si, o principal achado desta pesquisa: ela mede por quantos anos o crescimento da taxa de acesso, mais crianças e jovens que antes ficavam fora da escola passando a entrar, foi capaz de compensar, e mais que compensar, o encolhimento da coorte de nascimento. O Fundamental, hoje praticamente universalizado, teve a menor margem de acesso ainda para crescer, e foi por isso o primeiro nível a virar, mesmo assim só depois de 18 anos. Essa é a leitura, própria e não fornecida pelo INEP, por trás do porquê o Brasil não teve, e não deveria esperar, um penhasco ao estilo americano.
| Brasil | Estados Unidos | |
|---|---|---|
| Pico de nascimentos | 1983 | ~2007 |
| Causa do pico e da queda | Transição demográfica de longo prazo | Choque econômico datável (Grande Recessão 2007-2009) |
| Defasagem nascimento → pico observado | 13 a 18 anos | ~0 anos |
| Formato da curva | Rampa contínua, mais de 40 anos | Pico bem definido seguido de queda sustentada |
Estados Unidos: WICHE (Knocking at the College Door, 11ª edição, dezembro de 2024). O número de formandos do ensino médio americano atinge o pico em 2025 (3,9 milhões, o maior já registrado) e deve cair 13% até 2041 (3,4 milhões). Uma criança nascida no auge da crise de 2007 completa 18 anos exatamente em 2025, o mesmo ano do pico observado: teórico e observado praticamente coincidem, o oposto do padrão brasileiro.
Leitura do dado
A matrícula total do Ensino Superior brasileiro não parou de crescer (+71,8% entre 2009 e 2024, ainda subindo ano a ano). Um leitor apressado concluiria daí que o Enrollment Cliff não chegou ao Superior. Essa conclusão só é parcialmente certa: decompondo por modalidade, a matrícula presencial, o segmento etariamente mais próximo do público tradicional de 18 a 24 anos, atingiu seu próprio pico em 2015 (6.633.545) e já caiu 24,1% até 2024 (5.037.482), de forma tão ininterrupta quanto o Fundamental. O que sustenta o número total em alta é o EAD, que cresceu 272,3% no mesmo período. O Enrollment Cliff não poupou o Superior brasileiro: ele está mascarado pelo crescimento do EAD, não ausente. Não é possível, com os dados disponíveis, separar por completo quanto dessa migração é efeito puro da coorte de 18 anos encolhendo e quanto é troca de presencial por EAD por preço e conveniência: as duas causas provavelmente operam juntas.
Limites explícitos desta seção: os números aqui usam matrícula (estoque), não concluintes do ensino médio (fluxo de formandos, a variável que o WICHE usa nos Estados Unidos), porque o Censo Escolar não tem campo de conclusão em nenhum ano da série agregada por escola. Isso tende a suavizar, não eliminar, o sinal de queda. As datas de pico teórico são aritmética sobre a série de nascimentos, não rastreamento de coorte individual, que os dados públicos de hoje não permitem. Nenhuma projeção de quando o efeito bate com toda a força no Médio ou no Superior é estimativa oficial de órgão brasileiro: são extrapolações desta pesquisa, tratadas como hipótese de trabalho.
07 · Fragilidade regional
Índice de fragilidade estrutural por região, construído para esta pesquisa a partir de 4 componentes: queda de escolas, queda de escolas municipais, % rural em 2024 e razão aluno/docente em 2024. Não é uma métrica oficial do INEP.
Os dois métodos de cálculo testados (score contínuo e rank médio) concordam numa coisa com folga: existe uma quebra clara entre Norte e Nordeste (fragilidade alta, score acima de 77) e Centro-Oeste, Sudeste e Sul (fragilidade baixa, score até 26,5). A ordem exata dentro de cada bloco muda conforme o método, então só a separação em dois blocos deve ser lida como resultado robusto.
| Região | Escolas 2007 | Escolas 2024 | Variação | % rural 2024 | % privada 2024 | Razão aluno/doc. 2024 |
|---|---|---|---|---|---|---|
| Nordeste | 80.912 | 60.459 | -25,3% | 43,7% | 18,5% | 16,69 |
| Norte | 24.847 | 22.275 | -10,4% | 60,1% | 10,1% | 18,37 |
| Centro-Oeste | 9.712 | 10.634 | +9,5% | 14,2% | 19,2% | 18,25 |
| Sudeste | 57.139 | 61.414 | +7,5% | 9,8% | 24,4% | 15,71 |
| Sul | 25.897 | 26.283 | +1,5% | 15,0% | 20,0% | 13,46 |
O Centro-Oeste cresce em número de escolas (+9,5%, a maior taxa do país) mas termina 2024 com a segunda pior razão aluno por docente do Brasil (18,25), quase empatada com a do Norte (18,37, a pior). Crescer em rede sem que o corpo docente acompanhe na mesma proporção é um sinal de fragilidade de recurso que o número de escolas sozinho não captura.
O inverso da fragilidade demográfica: cada escola está recebendo mais ou menos alunos, em média, do que em 2007?
| Região | Matrícula média/escola 2007 | 2024 | Variação |
|---|---|---|---|
| Sudeste | 360 | 303 | -15,8% |
| Sul | 267 | 247 | -7,5% |
| Centro-Oeste | 379 | 353 | -6,9% |
| Norte | 208 | 214 | +2,9% |
| Nordeste | 206 | 223 | +8,3% |
O padrão se inverte por completo frente ao índice de fragilidade: Sudeste e Sul, as duas regiões estruturalmente menos frágeis, são exatamente as duas com a queda mais forte de matrícula média por escola (-16,0% e -7,3%). Norte e Nordeste, as mais frágeis, mostram matrícula média por escola subindo, porque a consolidação fechou primeiro as escolas pequenas e rurais, concentrando os alunos remanescentes em menos unidades.
Leitura do dado
A pergunta de onde priorizar prospecção comercial de Territory Management não tem resposta de uma dimensão só. O Sudeste combina o maior mercado privado do país (48,3% de toda escola privada básica) com a maior pressão de ocupação por escola (-16,0%): é ao mesmo tempo o maior volume e a dor mais aguda, o argumento comercial mais direto. O Nordeste é o segundo maior mercado privado (25,9% do país) e a região onde o Enrollment Cliff regional é mais literal, com a rede pública municipal em queda acentuada (-33,8% de escolas municipais) abrindo espaço para quem sobra e se expande, uma leitura de negócio diferente da do Sudeste: não excesso de oferta, vácuo deixado pelo setor público. O Sul é mercado de manutenção, historicamente a região com melhor razão aluno por docente do Brasil. O Centro-Oeste merece monitoramento, não prioridade agora: mercado pequeno em volume absoluto, com o sinal de alerta do recurso docente já descrito. O Norte tem o menor mercado privado endereçável do país (4,5% de todas as escolas privadas) e por isso é hoje um caso mais forte para conteúdo sobre o Enrollment Cliff regional do que para prospecção comercial direta.
Este índice é um constructo desta pesquisa, não uma métrica do INEP. Outra escolha de componentes ou pesos produziria um ranking diferente. Correlação entre fragilidade estrutural e mercado privado menor (Norte, Nordeste) não implica causalidade: ambas podem refletir uma causa comum, como renda ou densidade populacional, não medida diretamente aqui. Este recorte não mede a distribuição regional de Instituições de Ensino Superior, apenas o funil de alimentação da Educação Básica.
08 · O funil até o Superior
Correlação de tendência agregada nacional entre matrícula da Educação Básica e ingressantes no Ensino Superior. É covariação de séries nacionais, não coorte, e não é relação causal.
Leitura do dado
As três séries não se movem juntas. Fundamental e Médio encolhem de forma moderada e consistente, coerente com a queda de natalidade tratada na seção 06, enquanto ingressantes no Ensino Superior mais que dobram no mesmo intervalo (2009 a 2024). Isso já é, por si só, evidência de que o crescimento do Superior brasileiro não é explicado pelo tamanho do estoque de alunos no Ensino Médio: está vindo de outro lugar, majoritariamente EAD e estudante não tradicional.
Leitura do dado
Comparando a matrícula do Médio no ano N com ingressantes no Superior no ano seguinte (16 pares, 2008 a 2023), a correlação em nível é de -0,782 (p = 0,0003): forte e estatisticamente significativa, mas negativa. Isso não significa que menos alunos no Médio causam mais ingressantes. Significa que as duas séries têm tendências opostas de longo prazo (Médio caindo devagar, ingressantes subindo rápido), e uma correlação em nível calculada sobre duas tendências monotônicas e opostas produz, por construção, um coeficiente negativo forte. Removendo a tendência comum e olhando só a variação ano a ano, o resultado muda de sinal: 0,463 (p = 0,082), positivo mas não significativo no corte convencional de 5%, com pouco poder estatístico numa amostra de 15 pontos. Qualquer afirmação do tipo esta série correlaciona com aquela depende inteiramente de qual das duas formas de medir foi usada: reportar só uma delas seria estatisticamente enganoso.
Se a razão ingressantes do ano seguinte sobre matrícula do Médio tivesse ficado constante no nível de 2008 (24,7%) até 2023, os ingressantes esperados em 2024 seriam cerca de 1.894.351, bem abaixo dos 5.010.433 observados. A diferença, 3.116.082 ingressantes, equivale a 62,2% do total de 2024: mais da metade do volume atual de ingressantes não é explicável por um pipeline estável entre o Médio e o Superior.
Em 22 de setembro de 2025 o INEP divulgou, junto ao Censo da Educação Superior 2024, o único indicador oficial de coorte real disponível: 33% dos concluintes do Ensino Médio em 2023 se matricularam no Ensino Superior em 2024. Por rede: 64% na rede federal, 27% na rede estadual, a que concentra a maioria dos alunos, e 60% na rede privada. O gargalo de conversão está concentrado exatamente onde está a maioria dos estudantes brasileiros, não distribuído de forma igual pela rede.
Ressalva de proveniência: a divulgação oficial do INEP e do MEC (gov.br) bloqueia leitura automatizada; esta pesquisa confirmou, por busca direta, que gov.br/mec e gov.br/inep de fato publicaram comunicados com esse título e data, o que corrobora que a divulgação é real, mas os números 33%, 64%, 27% e 60% citados aqui vêm de cobertura de imprensa especializada que reproduz o comunicado, não de leitura direta do texto oficial. É também um ponto único no tempo, coorte 2023 para 2024: o INEP não publica, até onde esta pesquisa localizou, uma série retroativa de 2007 a 2023 do mesmo indicador, e por isso este número não pode virar um gráfico de 18 edições como o resto desta página.
Duas tentativas de estimar essa taxa a partir só de matrícula agregada falham, e falham de um jeito instrutivo: dividir a matrícula do Médio por 3, supondo um terço se formando a cada ano, supera 100% de conversão em 11 dos 16 anos da série, matematicamente impossível. A razão bruta entre ingressantes e matrícula do Médio, calibrada no mesmo ano em que existe o dado real (2023 para 2024), dá 65,3% contra os 33% reais, quase o dobro. Nenhuma das duas é substituto aceitável para o dado real.
Este levantamento não mede Yield Rate, Summer Melt, nem taxas de aprovação, reprovação ou abandono. Nenhuma dessas métricas existe nesta base, em nenhum ano da série 2007 a 2024.
Desde 2022, por decisão de LGPD retroativa a toda a série histórica, o INEP suprimiu todo atributo individual de aluno e docente. Não existe, para nenhum ano, rastreamento de coorte ou de trajetória do mesmo aluno ao longo do tempo, o que também limita as correlações agregadas das seções 06 e 08: são covariação de tendência nacional, nunca acompanhamento do mesmo estudante.
Qualquer indicador que dependa de série retroativa e não exista publicamente, como a taxa de conversão do Ensino Médio para o Superior fora do ponto único de 2023 para 2024, fica registrado aqui como lacuna, nunca preenchido com estimativa fabricada.
Fontes: Censo Escolar da Educação Básica, INEP, 18 edições 2007 a 2024, microdados agregados via BigQuery (dataset público basedosdados, tabela "escola"). Seções 06 e 08 cruzam esses números com estudos próprios de pesquisa de Enrollment Management da Astronauta: datação do Enrollment Cliff brasileiro (nascimentos: Banco Mundial/ONU; comparação EUA: WICHE, "Knocking at the College Door", 11ª edição, dez/2024), mapa regional de fragilidade estrutural, e correlação agregada Fundamental → Médio → Superior (ingressantes: Sinopse Estatística da Educação Superior, INEP; conversão de coorte: comunicado INEP/MEC de 22/09/2025). Consultado em 30/08/2026.
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